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A Pesquisa do Canto Gregoriano no Séc. XX: Implicações em sua prática interpretativa

Abstract. This paper aims to propose to the Brazilian universities a scientificcultural debate, very important to the musicology in the world: the study of a gregorian musical performance through the gregorian palaeography and semiology. Since the iniciatives of Dom Guéranger, a Solesmes monk, in 1822, the abbey has been responsible of a renewal and return to the origins of this monodical tradition, basilar to understanding the Western Music. Launching an example of an interpretative proposal, based on gregorian semiology studies, insert us in this process of renew, specially in Brazil, that has suffered a very strong influence from the European culture.

Resumo. Este artigo tem o intuito de propor para a academia brasileira um debate científico-musical muito importante para musicologia mundial: o estudo da interpretação gregoriana através da Paleografia e Semiologia Gregoriana. Desde as iniciativas de Dom Guéranger em 1822 que a Abadia de Solesmes na França tem sido responsável pela renovação e retorno às origens desta tradição monódica básica para a compreensão da música ocidental. Lançar um exemplo de proposta interpretativa segundo a semiologia gregoriana nos insere neste processo de renovação, que resgata as origens desta tradição, principalmente em nosso país, que vem sofrendo influência da cultura europeia desde a sua fundação.

1. Introdução

O estudo e pesquisa sobre o canto gregoriano, em relação ao tempo de sua existência na cultura ocidental, é demasiadamente recente. De fato, os primeiros relatos de uma prática gregoriana homogênea difundida em toda Europa remontam ao século VIII e os primeiros registros são datados do fim do século IX (RAMPI, 2006, p. 26). Foram necessários dez séculos de prática musical litúrgica, mudanças, concílios, a decadência e renascimento de uma ordem monástica, a ordem beneditina, especificamente na abadia de Solesmes, para que o resgate da antiga tradição gregoriana fosse realizada. No ano de 1822, um monge de Solesmes, Dom Prosper Guéranger, foi responsável pelo início de movimento de restauração da liturgia romana. O seu desafio

começa da restauração dos textos, mesmo que estivesse consciente da necessidade de

uma restituição melódica, baseada nos manuscritos mais antigos das diversas regiões da

Europa. A sua iniciativa deu origem a diversas outras iniciativas, entre as quais a

descoberta de manuscritos antigos, chegando ao ponto de um outro monge solesmense,

Dom Pothier, publicar em 1883 o Liber Gradualis, uma proposta de restituição

melódica (baseada nos primeiros códigos pesquisados após o trabalho de Guéranger)

dos cânticos da missa da Editio Ratisbonensis, até então a edição adotada pelo Vaticano.

Em 1889, Dom Mocquereau, outro monge solesmense, deu início a uma serie de

publicações cientificas intituladas Paléographie Musicale, até então em curso e que

hoje conta com 23 volumes, cada um dedicado a um manuscrito, reforçando a

veracidade do trabalho de Pothier.

Os trabalhos de Solesmes foram tão relevantes que o Papa Pio X, na ocasião da

publicação do Motu Proprio de 1903 “Tra le sollecitudini” (onde reafirma a prioridade

absoluta do canto gregoriano na liturgia romana), incentivou a publicação de um novo

Graduale Romanum (1908) e de um novo Antiphonale Romanum (1912), baseados no

Liber Usualis de Pothier.

Era o prelúdio da história do renascimento do canto gregoriano no séc. XX, que

atingirá o ápice com os estudos sobre a rítmica gregoriana (coluna ausente até então do

tripé texto-melodia-ritmo), de Dom Eugene Cardine. Ele, baseando-se no trabalho de

Dom Mocquereau, fundou a disciplina denominada Semiologia Gregoriana, a pesquisa

do significado musical dos neumas em campo aberto (sem linhas). Ou seja, o

significado rítmico, já que pouquíssimo se podia afirmar da melodia, com a ausência

das linhas.

De fato, a melodia, para os primeiros monges copistas, era um fenômeno sabido,

desnecessário de ser lembrado, muito conhecido e exercitado pelos coristas na idade

media e que precisavam de indicações em relação à retórica, expressividade e pronúncia

dos textos em questão (Rampi 2006, p. 40-41). A publicação de Dom Cardine, O

Graduel Neumé (1966), estimulou a fundação da associação internacional de Estudos do

Canto Gregoriano e publicação do Graduale Triplex e Graduale Romanum com

acréscimo de duas notações adiastématicas: notação metense (Laon 239) e notação

sangalese (Saint Gallen 359, 376 e Einsiedeln 121).

Este artigo irá apresentar uma proposta de prática interpretativa para o canto Ad

te levavi (Introitus do primeiro domingo do Advento), extraído do Graduale Triplex,

seguindo os estudos da Paléographie Musicale de Dom Mocquereau, com proposta de

restituição melódica deste canto, e seguindo os estudos da Semiologia Gregoriana de

Dom Eugene Cardine, com proposta rítmica baseada no ritmo silábico.

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