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Por Fulvio Rampi

A minha recente participação intitulada “O canto gregoriano: um estranho no ninho”  (conferência apresentada em 19 de maio de 2012, em Lecce, por ocasião do primeiro encontro nacional “Colóquios sobre música sacra: cinquenta anos do Concílio Vaticano II à luz do magistério de Bento XVI”), teve a intenção substancialmente de responder à seguinte pergunta: “O que é canto gregoriano?” . As reflexões sobre a natureza da antiga monodia litúrgica sugeriram vários níveis de resposta, mas motivaram e deram corpo sobretudo à definição de canto gregoriano como “canto próprio da liturgia romana” (SC 116).
XIL16717 The Concert in the Egg (oil on panel); by Bosch, Hieronymus (c.1450-1516) (after); Musee des Beaux-Arts, Lille, France; Lauros / Giraudon; Netherlandish, out of copyright

A presente contribuição não é mais que a continuação do mesmíssimo percurso, que pressupõem as fundamentais aquisições e orienta a reflexão às consequências que dele derivam. Consequências que interessam aos nós centrais do canto litúrgico, primeiro entre todos as relações entre assembléia e canto da liturgia segundo valorações possivelmente muito além dos já consolidados lugares comuns e enganadoras simplificações.

O debate pós-conciliar sobre o canto assemblear é sempre distinguido pelos tons brilhantes: a meio século dos pronunciamentos oficiais – seguidos dos documentos magisteriais não menos significativos sobre canto litúrgico – a questão não pode-se dizer resolvida. A fraca reflexão eclesial contribuiu para determinar uma progressiva degradação da prática litúrgico-musical, com resultados frequentemente humilhantes. Temos como exemplo paradigmático a vexata quaestio (superada questão) da participatio actuosa (participação ativa), marco da reforma litúrgica pós-conciliar, transformada rapidamente no fruto venenoso de um assemblearismo extremo e a todo custo; à participação foi substituída a homologação e terminou-se por empobrecer aquilo que o último Concílio tinha pedido para enriquecer. O canto assemblear virou “a tradução simultânea” da participação ativa: segundo a opinião surgida largamente majoritária, tudo aquilo que o exclui se configuraria automaticamente em elemento negativo em si mesmo porque está em contradição “a priori” tal princípio.

Na realidade, o que foi apenas mencionado não tem nada a ver com a dignidade e especificidade que devem ser certamente reconhecidas – mas de outro modo – do canto assemblear, chamado a ser um “valor adicionado”e não elemento destrutivo da componente musical do ato celebrativo. E não só isso, mas é acentuadamente estigmatizado – como se dirá mais a frente  – por um grave erro conceitual: aquele de atribuir uma primazia ao canto assemblear no culto divino, contradizendo clamorosamente a natureza e a história.

A colocação em discussão de um alegado primado do canto assemblear, em verdade não anula de fato o papel da assembléia, cuja participação ativa deve ser compreendida e vivida em um plano muito mais alto do que um banal ativismo litúrgico. Tal consciência se substancia em espaços e competências especificas, em verdades normais às regras litúrgicas, segundo as quais um patológico assemblearismo deve ser substituído pelo valor da ministerialidade. A reflexão sobre a ministerialidade, ainda hoje necessitada de novas contribuições, não pode subtrair-se também de uma mais nova e mais profunda reflexão sobre “as formas próprias” a esta conexa. Tocamos aqui um ponto delicado da questão porque são colocados em jogo dois aspectos decisivos: a potencialidade da assembléia e a sua idoneidade de realizar através do canto os momentos próprios do rito.

Raciocinando sobre as consequências derivadas de uma reflexão sobre a natureza “eclesial” do canto gregoriano, percebemos que o “canto próprio” da liturgia interessa, sobretudo os “cantos próprios” da liturgia, que de tal modo tornam-se para todos os efeitos atos litúrgicos. Do ponto de vista musical, o que torna “próprio”, por exemplo, um intróito ou um communio de uma missa? Se dirá: o texto. É verdade, mas é suficiente? É suficiente assegurar-se que em cada contexto ressoem textos específicos? Em outras palavras: é suficiente entender o próprio como pura materialidade do texto literário, em latim ou em língua vulgar que seja? Certamente não. O texto é obviamente o pressuposto essencial ou, se quisermos, o “material bom”: isto, todavia, espera tomar forma sobre a base de um verdadeiro e apropriado projeto de elaboração. Um projeto que, no pensamento da Igreja, é orientado à exegese apresentável como ato litúrgico: a grande tradição do canto gregoriano é este paradigma indelével, não em razão das suas qualidades artísticas – ligadas à epoca medieval em qual se desenvolveu – mas principalmente em virtude de seu caráter “simbólico”.

E é precisamente este último dado inevitável que o canto gregoriano nos entregou para sempre e a Igreja declarou “seu”: não tanto um repertório musical, mas um projeto exegético; não um elenco de cantos, mas uma elaboração precisa de textos. Ao texto, que deverá tomar som para tornar-se momento litúrgico-musical próprio, é necessariamente associado um percurso estilístico-formal rigoroso, que vira verdadeira e própria arquitetura sonora respeitável de um projeto articulado, complexo, ordenado. Em suma, o texto previsto para cada momento litúrgico transforma-se em liturgia cantada só depois de ter percorrido um “itinerário próprio”. Para tanto, somente o projeto pode se dizer próprio, não o texto enquanto tal. Se é verdade que cada época é chamada a fazer soar os textos próprios da liturgia em razão de sempre novas sensibilidades e expressões musicais, é também verdadeiro que tal liberdade não pode fundar-se unicamente sobre um puro respeito aos textos. Considerar suficiente – ou mesmo desejável – este princípio, significaria mudar substancialmente as regras do jogo, legitimando uma operação de esmagamento e rebaixamento como resposta a uma entrega de grande espessura.

Alcançamos o coração do problema; melhor, chegamos a uma encruzilhada que impõe uma escolha clara a qual não podemos fugir: de uma lado tem a estrada indicada e já percorrida pelo canto gregoriano e de outro lado parte um percurso marcado pela pura utilização dos textos próprios.

Restrinjamos propositadamente o campo a estas duas possibilidades e não consideremos outras estradas que, a partir dos primeiros anos do pós-Concílio, representaram não só um rompimento com a Tradição da Igreja, mas uma verdadeira vergonha que, dedicada a mais banal improvisação e com a cumplicidade de uma boa parte dos liturgistas, terminou por contradizer também os pressupostos mínimos do culto divino, da arte musical e do bom gosto. O beco sem saída desta loucura, é inútil dizer, condicionou a reflexão e a prática até os dias de hoje: os frutos dessa planta doente se apresentam a nós continuamente com abundância e igualmente inconsistência, ícones falsos de uma liturgia reduzida a “happening” de comunidades que celebram a si mesmas, tanto complacentes quanto confiantes de uma mediocridade atualmente erigida sistematicamente. Certo, falar de textos próprios em uma situação assim devastada é já um grande passo avante, mas é só um modo para sair do beco sem saída e alcançar de todo modo – ainda que sobre um plano diferente – a mencionada encruzilhada que, da sua parte, reclama uma escolha precisa de percurso, com todas as consequências e armadilhas que dela derivam.

Já foi dito o que significa tomar decididamente a estrada marcada do canto gregoriano: avaliemos agora sinteticamente as consequências práticas. Aquilo que definimos itinerário próprio do texto sacro, se substancia em uma elaboração muito complexa que, por isso, requer a presença de especialistas para a execução. A média complexidade, por exemplo, de um intróito, como a notável dificuldade de um gradual ou de um ofertório, convocamos uma “schola”  bem preparada e um solista muito bem dotado para resolver. Isto significa que o texto mostra suas qualidades expressivas e torna-se próprio somente através de “formas elevadas” que, marcadamente no contexto litúrgico da missa, se distinguem claramente da construção em estilo silábico reservada ao repertório das antífonas do Ofício Divino. Texto e complexidade de elaboração são inseparáveis: o texto próprio, inseparável do momento litúrgico, resulta, igualmente inseparável do projeto estilístico-formal que define a destinação litúrgica.

O canto gregoriano, bem compreendido, pressiona muito além e acrescenta, à citada lógica, a componente formular e alusiva; de qualquer jeito, o que foi dito é suficiente para desenhar uma primeira e significativa conclusão: neste percurso não tem rastros de canto assemblear. Em outras palavras, o itinerário do texto litúrgico que torna-se canto não é confiado à assembléia, a qual limitada “potencialidade” se acrescenta uma ainda mais estrutural e radical inadequação e distância do projeto sonoro o qual são submissos os textos próprios da liturgia. Outra coisa são os textos do Ordinário, a partir de aclamações e de respostas ao celebrante: aqui a tradição do canto litúrgico abre amplos espaços para o envolvimento direto da assembléia. Mas os textos próprios são uma outra coisa.

Retornando à nossa “encruzilhada”, a outra estrada praticável é exatamente aquela do puro respeito aos textos próprios. O projeto, neste sentido, toma decididamente outra direção porque perde sobretudo a sua natureza simbólica, ou seja, a capacidade de representar a síntese de elementos constitutivos inseparáveis entre eles. O respeito somente ao texto cria, de fato, uma fratura entre texto, estilo, forma, modalidade executiva, enfraquecendo cada um destes elementos, e destruindo suas relações vitais. A primazia do texto – em si um ponto de partida inevitável – assume contornos ambíguos, gerando, de fato, uma qualidade secundária em seu percurso de elaboração estilístico-formal. Tentando esquematizar, poderíamos dizer que a primeira estrada da encruzilhada era endereçada à síntese entre “o que”e “como” se canta, enquanto esta segunda estrada, mesmo mantendo prioritário “o que” (o texto próprio), rediscute o “como” compreendendo-o como ente autônomo, não mais intimamente conexo com o “como”, mas passível de redefinição com critérios diferentes.

Uma vez realizada a fratura, os critérios do “como”, surgem, inevitavelmente desvinculados de um ordenado e complexo percurso estilístico-formal. A imediata e lógica consequência é inevitável: na atual situação – que pouco a pouco consolidou um grave mal entendido acerca do significado de participação ativa da assembléia no rito – é já esperado que do “como” venha anteposto o “quem”canta. Mas a diferença é realmente substancial: como já foi dito, a síntese entre “o que” e “como” delineava um itinerário próprio do texto e produzia um “quem”como consequência (a “schola”). Se, vice-versa, o “quem” toma o posto do “como”, tudo muda radicalmente, no sentido que a assembléia, tornada agora inoportunamente elemento discriminante, inverterá essa mesma lógica, definindo e subordinando o “como”. Estilo e forma não poderão mais que ser mensuradas de acordo com as possibilidades concretas (e exíguas) da assembléia: tudo torna-se sem dúvida mais simples e segundo a opinião difusa, pastoralmente conveniente. Mas o texto aqui se assemelha a um “cavalo de Tróia” que, simulando a continuidade de uma tradição (a respeito dos textos próprios), uma vez dentro da liturgia confere legitimidade a uma operação tanto ilusória como destrutiva e produz ao interno o grave rompimento do projeto global, o verdadeiro “talento” que nos foi entregue pela Igreja.

A lição nos ensinada do canto próprio da liturgia romana é clara: à assembléia não é devida a proclamação dos cantos de textos próprios da liturgia; para esse ministério é necessária a “schola”. A escolha da outra estrada pode nutrir a ilusão de que o respeito aos textos próprios seja perfeitamente compatível com o canto assemblear: se trata efetivamente de uma ilusão, porque a ideia de fazer cantar a todos os textos previstos para aquela celebração específica não pode prescindir da consciência de que tal operação se contradiz em substância.

Que fazer, então, com os textos próprios destinados ao canto? É necessário atentar ao canto gregoriano e cantar somente aquilo? Certamente não. Ainda que este permaneça o canto próprio da Igreja, ao qual é “reservado o lugar principal” (SC 116), a sua mensagem indelével e normativa está na indicação de um projeto de elaboração textual que o texto é chamado a realizar. Mais que desejar um envolvimento direto da assembléia, seria melhor desejar um novo percurso compositivo sobre os textos próprios (não necessariamente em latim): não uma simplificação para a execução acessível a todos, mas, ao contrário, uma nova reelaboração objetivando sintetizar tudo que o canto gregoriano conseguiu realizar de um modo único: a exegese dos textos através da construção de um sólido, coerente e complexo projeto estilístico-formal, “elevado” na linguagem musical e diversificado em relação ao contexto litúrgico. Trata-se, em substância, de recolocar em ordem a citada sucessão: “o que – como – quem” feita pela Tradição do canto litúrgico e encarnada plenamente no canto gregoriano; dali deve ser extraído o modelo para orientar com arte os esforços futuros. É um desafio para longos temos que deverá envolver não só musicistas, mas também e sobretudo os coralistas, chamados não somente a sustentar o canto assemblear, mas sobretudo realizar da melhor forma e com renovado profissionalismo o seu ministérios, mediante a execução das formas elevadas (antiga e nova) do “Proprium Missae”.

Como muitos amam definir, a presença da assembléia no território do “Proprium Missae” não diminuiria a importância da “Schola”, convocada igualmente a cobrir os mesmos espaços, de repente alternando-se com a assembléia ou procurando uma espécie de compromisso equilibrado. Mas um equilibrado compromisso, em si desejável em cada ação litúrgica, não pode fundar-se sobre uma invasão de campo; uma vez respeitadas as competências que se poderá falar de compromisso. Aquilo que cabe a “Schola” – em relação aos cantos de textos próprios – não pode fazer mais ninguém: a sua presença, na verdade muitas vezes somente tolerada, é ao invés para compreender-se como necessária e, sobretudo, única para a realização em canto dos textos próprios. Escolhendo uma outra estrada, obviamente, este pressuposto é desconsiderado e todos são potencialmente legitimados a fazer tudo. O envolvimento assemblear, nesse caso, é a medida da nossa indisciplina em respeitar as precedências. Tal regra de ouro, ditada pela Tradição da Igreja, sugere que orientemos nossos esforços em direção àquilo que podemos verdadeiramente definir como “boa pronúncia do texto”, operação completamente estranha ao envolvimento da assembléia.

O canto gregoriano nos deu a medida desta boa pronúncia e o fez colocando em dura prova a “Schola” e solistas, os únicos sujeitos em grau de fazer ressoar as formas elevadas produzidas pela elaboração do texto. Aquilo que fez o gregoriano com o texto latino, que encontrou continuidade nos intentos da tradição polifônica clássica, é aquilo que hoje se exige com paridade e absoluta precedência às novas propostas musicais mesmo com tradução italiana (ou portuguesa) dos textos próprios. O canto gregoriano nos recorda continuamente: a sua execução – também e sobretudo hoje – no lugar principal da liturgia, não deve ser compreendida como escolha imutável do repertório musical, e sim como memória e aviso de exigência inescapável de síntese entre texto, forma, estilo compositivo. Neste sentido, as novas composições – como recomendava profeticamente o Motu próprio de Pio X em 1903 – deverão “assemelhar-se” ao canto gregoriano. Hoje podemos dizer bem, parafraseando Agostinho, que tal semelhança não se encontra sobre o plano do “desenho” musical, mas do “projeto” exegético completo que o determina.

Mas exatamente isto, no fundo, é o limite estrutural de uma reflexão diária: as novas respostas a tal projeto normativo são assemelhadas pelo marco da “simplificação”, palavra de ordem de tudo que se transforma em preocupação pastoral. O mesmo canto gregoriano, se notarmos, foi intimamente envolvido nesta  latente derivação pós-conciliar. Que o gregoriano tenha sido obstinadamente recusado depois da última reforma litúrgica é uma triste realidade, mas que o mesmo repertório da Igreja tenha sido objeto – por parte da própria Igreja – de operações discutíveis é talvez menos evidente, mas igualmente verdadeiro. É um exemplo paradigmático o “Graduale Simplex”: não podendo aqui analisar a fundo o seu conteúdo, é necessário dizer que já o título se apresenta como um verdadeiro e próprio oxímoro, se consideramos o fato de que o Graduale – livro litúrgico que contém os cantos do “Proprium Missae” – não prevê nenhuma “simplicidade” na construção musical de todos os seus cantos. O “empréstimo de antífonas silábicas do repertório, ainda que autêntico, do Ofício Divino, corresponde mais uma vez à lógica da simplificação, operada através de uma descontextualização a qual, talvez, não foram avaliadas suficientemente as consequências. O “fim” de uma execução mais “compartilhada” justificou os “meios”, sacrificando assim a essência mais preciosa.

O verdadeiro desafio para o futuro – ao contrário -lançado pelo canto gregoriano e das suas vertiginosas perspectivas feitas desde sempre pela Igreja, move-se em uma direção exatamente oposta e exatamente por isso arrisca de não encontrar verdadeiros desafiantes . A elaboração musical dos textos litúrgicos próprios é chamada a apresentar-se como uma operação de profundidade atual, para preparar-se longamente, com cuidado e com alto perfil artístico. Mas sobretudo é chamada a ser uma operação requintadamente eclesial, no sentido que cabe à própria Igreja, atingindo a fonte do “seu” canto gregoriano, definir textos, tempos, estrutura formal de composições chamadas a fazer-se verdadeira liturgia e que, com linguagens novas, saibam aludir à mesma operação de exegese e de “lectio divina” conduzidas à perfeição pelo canto gregoriano. Tudo isto não é absolutamente simples e muito menos simplificável.

O canto da assembléia: o que fazer?

Mas se verdadeiramente queremos seguir a estrada mestra da continuidade, como deve ser compreendido o papel da assembléia? Se não lhes competem os textos próprios, qual é o seu espaço musical? Já se mencionou o envolvimento assemblear nas respostas e nos cantos do Ordinário. Mas para os momentos do Próprio, em substituição à “schola”, como pode entrar a assembléia?

Escolher a estrada da continuidade significa acolher também para assembléia a lógica estilístico-formal, sobre a qual colocamos uma particular atenção. Sem prejuízo do destino “especializado” dos próprios textos, a assembléia tem direito a novos textos que, com sabedoria e certeza, poderão comentar, meditar também com novas palavras os mistérios celebrados durante todo o ano litúrgico e em épocas diferentes do rito. Se o estilo de cantar em conjunto, por sua própria natureza, só pode ser mantido simples, é precisamente na forma que a assembléia deve encontrar seu espaço específico. Os vastos repertórios de canções folclóricas tradicionais e pós-conciliares cristalizaram as mais diversas formas musicais, com uma acentuada propensão, especialmente nas últimas décadas, para a forma responsorial. Mas a canção da assembléia é chamada para ir além da exumação e da re-proposta – em si mesma muito apreciável – de tais repertórios, dos quais a rara capacidade de transmitir, com verdadeira arte musical e profunda inspiração, a intensa e comovente devoção popular.

Bem, mesmo aqui, se quisermos, é a mesma tradição centenária do canto litúrgico que nos ensina algo. A reflexão sobre as formas a serem atribuídas à assembléia vê no hino uma das respostas mais concretas e coerentes. Como amplamente testificado pela antiga tradição ambrosiana e gregoriana, a forma do hino define uma espécie de modelo paradigmático da canção de assembléia: o texto original, a estrutura estrófica medida e repetitiva facilmente memorizável, fazem do hino um poderoso instrumento expressivo ao alcance de todos. Como se sabe, a liturgia colocou-o, com algumas exceções, no repertório do ofício: portanto, o elemento de novidade poderia ser justamente a extensão de seu uso assemblear também e sobretudo na liturgia eucarística. Não obstante uma possível pluralidade de formas também para cantar em assembléia, por que não identificar “em primeiro lugar e acima de tudo” uma forma nobre transmitida a nós pela Tradição – o hino, precisamente – o sinal distintivo do canto do povo em uma liturgia católica? A tradição consolidada do trabalho coral na esfera protestante – que também atinge grande parte de suas melodias as dos hinos antigos – oferece uma evidência clara da necessidade e eficácia de uma referência formal sólida e precisa para o canto de todos os fiéis. À luz dessas experiências, talvez seja útil repartir do próprio hino a um novo projeto textual, formal e musical de canto assemblear aberto ao futuro e consolado pela genuína e antiga experiência eclesial.

Conclusões

Um requisito é imposto a todo o resto: Organizar. As décadas pós-conciliares foram marcadas, como já dissemos, por tentativas sistemáticas de homologação: é, portanto, uma questão de seguir o caminho oposto da diferenciação, de descobrir cada vez mais claramente a relação vital autêntica que une e ao mesmo tempo distingue “schola” da assembléia, para atribuir a ambos a posição correta na prática litúrgico-musical. Organizar equivale a definir prioridades e hierarquias indispensáveis, que tentamos resumir em síntese extrema:

1) Os próprios textos, como tal, têm precedência absoluta: seu uso “música” é historicamente subordinado a uma elaboração estilística-formal complexa, bem como especializada e estruturada: por isso eles não são confiados à assembléia, mas à “schola“. “: a esta última deve-se dar precedente “estrutural” em confronto com a assembléia em relação ao canto litúrgico. Parafraseando o ditado conciliar, poderíamos dizer que o lugar principal deve ser reservado para o canto apropriado da “schola“, isto é, o canto gregoriano ou formas altamente polifônicas de composição antiga ou nova nos mesmos textos.

2) Uma vez respeitada a primeira condição em princípio, abre-se a possibilidade de que a assembléia cante em estilo simples, com textos “não próprios” e com seletividade de formas, para os momentos da liturgia. Portanto, para esses contextos rituais, é evidente a subordinação do canto assemblear, e vice-versa, uma prioridade nas respostas ao celebrante e recomendável nos cantos (mas não transformados em formas responsoriais) do Ordinário.

3) A exemplaridade musical do rito começa a partir daqui e é baseada nas hierarquias acima mencionadas, com tudo o que se segue dela, mesmo em termos muito práticos. Se não é concretamente possível – exceto por raras exceções – exigir o mais alto nível de exemplaridade das comunidades paroquiais, é pelo contrário necessário solicitar esse esforço não apenas para as celebrações papais, mas também para as catedrais, as basílicas, os principais santuários, onde se deve investir as melhores energias e as mais altas habilidades profissionais para dar voz aos textos litúrgicos. Uma catedral é chamada para ser um modelo desta exemplaridade diante das paróquias da diocese, não um ponto de referência principalmente para o canto da assembléia. Por fim, deve-se dar a este último a dignidade que lhe compete: uma operação que só é possível no âmbito de uma reflexão ampla que visa redefinir e rearranjar competências e espaços, de modo a permitir vislumbrar um ponto fixo à vista na forma do hino da formação de um novo repertório específico para o canto do povo.

Fulvio Rampi – 16.01.2013

Gregorianista, docente do Conservatório de Música de Turim

disponível em: www.chiesa.espressonline.it

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