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O “Ethos” dos Modos: III modo (deuteurus autenticus)

São Paulo - Philippe de Champaigne (1602-1674)
São Paulo – Philippe de Champaigne (1602-1674)

O Deuterus de terceiro modo é colérico: representa a capacidade misteriosa do fogo em se espalhar, consumindo e transformando tudo que alcança.

Por J. Jeanneteau   O mais misterioso de todos os modos, como dizia Dom Gajard, não pode ser encarado sem prudência e cautela. As dificuldades de interpretação, a gravidade na execução, os ardores muito ostentados, os sentimentos mal contidos ou não expressos impedem com freqüência de colhermos a naturalidade de seu lirismo profundo. Por outro lado, o passar do tempo lhe arrancou parte de sua caraterística primitiva, de seu fascínio interior, de seu mistério, para fazer-lo mais afirmativo sobre os “dós” novos e apagados, em pastiche de oitavo modo; alteração que obscurece ainda sua essência. Relembremos que para validar corretamente o ethos de terceiro modo, precisamos inicialmente restabelecer os cantos em sua pureza melódica primitiva; reconduzir a si, os “dós” que não pertencem à melodia autêntica. Geralmente, a conclusão de uma recitação ou apoio de uma cadência sobre o si constitui uma espera, e uma subida melódica ao dó, tende a dar para os cantos um ar triunfante, muito gloriosa em relação ao senso profundo primitivo. Em vez de triunfar e de apagar-se, se aspirar a procurar posteriormente e a admirar: é ainda tudo interior, um impulso que não pode resolver terminar; é um canto, não desiludido, mas incompleto. Se confrontam, neste sentido, duas versões do Pange lingua: uma sobre o si, é mais interior e sem perder o seu impulso; a outra, mais estruturada sobre o dó, desenha um andamento triunfante. Que dizem os autores que escreveram antes de nós? o que nos impõem as características específicas desse modo? Eis os seus predecessores, Poisson escreve: “Esse modo é próprio dos textos que manifestam muita impetuosidade, desejos veementes, movimentos de cólera, de ardor, de vitalidade e de solicitude. Exprime felizmente as ordens, os comandos, as ameaças. Atinge pela sua vivacidade; ele apresenta saltos nas suas progressões e combina com os sujeitos que proclamam orgulho, altivez, crueldade, as palavras duras e aquelas que tratam de combate espiritual e corporal; desperta com mais prontidão que qualquer outro modo os afetos do coração, é patético,: sobre este modo, vêm felizmente variados movimentos de força, grandeza, nobreza, e doçura. Mas nem o contraponto nem o falso-bordão (fauxbourdon) encontraram ainda o meio de convenientemente entrar em acordo com este modo, como reconhece os melhores sinfonistas”. Essa última observação, a dificuldade de tratar harmonicamente o terceiro modo, mostra bem que se trata de um modo a parte, o mais resistente aos nossos gostos modernos. O texto insiste sobre a originalidade, mas também sobre o vigor deste modo, o seu ardor, a sua nobreza, os seus “saltos nas suas progressões”, suas felizes variações nos sentimentos, da força à doçura. O abade Tardif escreve na metade do séc. XIX: “O terceiro modo, o modo frígio, designado sobre o atributo relativamente vago de místico, é variadamente avaliado. Enquanto alguns o definem religioso e divino, outros os chamam veemente e apaixonado. Todavia se pode conciliar esta aparente contradição, porque o termo que designava (na Grécia antiga) a violência, a paixão, exprimia também a inspiração sobre o influxo da divindade. É certo, pelo contrário, que o caráter próprio desse modo é a irregularidade, derivada do fato que ele deixa sua estrutura harmônica para jogar-se sobre outras cordas modais, em uma posição invertida. Acrescentemos a isto a potência com a qual estabelece sua dominante sobre a sexta nota (dó), e a predileção que ele manifesta mais do que qualquer outro modo autêntico, por intervalos amplos e disjuntos (o máximo de distância entre a final e a récita nos outros modos autênticos é uma quinta); acrescentemos a doçura de suas terças menores e o semitom sobre o qual inicia e termina sempre em estado de êxtase e se entenderá essa mistura de exaltação e de doce voluptuosidade que o faz assim impressionante o terceiro modo (modo frígio), quando são superadas as suas dificuldades. Esse modo é igualmente adaptado para desenharmos os combates do tempo e a aspiração  das alegrias da eternidade.” Os antigos o chamavam o “místico”: Tertius, mysticus. Qual era o sentido do termo mysticus para os autores medievais? Entre os tantos significado e nuances possíveis, existem, em realidade, duas ideias ao mesmo tempo: “misterioso” e “relativo aos segredos religiosos, mistérios”. O místico é “iniciado”, mais especializado, mais refinado no conhecimento e na contemplação dos mistérios. É esse o significado mantido na Igreja, aquele que se usa para falar dos grandes místicos ou estados místicos. A fachada de Cluny traz a seguinte descrição para o terceiro modo: Tertius impigit Christumque resurgere fingit. Se traduz como: “o terceiro “pinta” a ressurreição de Cristo”, mas é necessário dizer mais corretamente e precisamente: “o terceiro modo nos leva a imaginar o Cristo em sua ressurreição”, porque o verbo impigo “empurrar com força”, não é o verbo “pintar. A afirmação do artista de Cluny deriva do fato que o primeiro desponsório do matutino da Páscoa, Angelus Domini, é de terceiro modo? Certos autores em efeito, qualificaram o ethos dos modos de uma maneira um pouco simplista, referindo-se aos principais cantos desta ou daquela festa litúrgica. Mas havendo outros textos nesta fachada, podemos dizer que não é esse o caso. A ressurreição, é a libertação da morte e da matéria e o ascender acima da terra.. o que torna mística a sua contemplação. Sem dúvida, todos os modos são, da sua maneira e medida, contemplativos. O terceiro modo é então, o mais místico de todos. Dom Gajard, sem querer aventurar-se, escreveu: “Se pode bem dizer que em toda arte gregoriana, o deuterus constitui um mundo a parte, assim bem diferente dos outros modos antigos, como também da nossa música moderna”. Esse movimento incessante do terceiro modo o faz parecer mais volátil que os outros modos. Volátil, mas ao mesmo tempo penetrante. É, em consequência, a expressão de uma profunda sabedoria, tanto é verdade que a sabedoria personificada é “suave, móvel, penetrante”, “o mais ágil de todos os movimentos” e ao mesmo tempo “estável, seguro, sem preocupações. Estas características não convêm talvez ao terceiro modo, o místico e sábio, assim potente, ao mesmo tempo na sua contemplação e expressão? Se admite, então, que o terceiro modo seja difícil de compreender em sua totalidade e difícil de executar no seu incessante movimento. Como conciliar, em uma justa fórmula, adaptada a exprimir o ethos, essas múltiplas formas, esses numerosos aspectos, esses julgamentos assim diferentes? O termo mestre para traduzir o ethos do terceiro modo, nos parecer ser “ardor fervente”, interior e exterior místico, expressão de energia excepcional do místico na contemplação, nos santos desejos, a alegria do louvor, e, sempre, a “viva chama do amor”. Esse ardor nos diversos estados da alma, se constata em sua forma mística no “Cântico das Criaturas” de São Francisco de Assis assim como no “Cântico espiritual” de São João da Cruz, um dos máximos escritores do “Século de Ouro” Espanhol. Neste terceiro modo “que não termina”, se encontram, em efeito, paradoxos e os contrastes do místico. Ele procura sem enunciar. Não pode formular o que não se pode enunciar e retoma então o seu discurso. Daí então a sua prolixidade, no anúncio e na sua definição, de uma realidade que não se pode possuir… O seu texto tenta também fazer enxergar o que está escondido, o fenômeno invisível e indizível. E se passa de um aspecto a outro, sem que a relação entre um e outro possa ser definida. O comentário se perde então, necessariamente na confusão da locução transitória… Sem dúvida é um modo misterioso e místico, aos limites do lirismo espiritual, lirismo incompreendido porque a evolução corruptora o atrofiou. Porém, quando bem compreendido, parece maravilhoso. Esta exuberância de riqueza, ardente e mística, o faz sem dúvida difícil. Por causa da citada dificuldade, a execução transforma-se frequentemente pesada e essa execução defeituosa impede, por outro lado, de colher-se o seu dinamismo e a sua excelência. Facilmente animado, pode parecer agitado, enquanto que no fundo é muito calmo, e geralmente pleno de docilidade e serenidade, ondulante em torno da corda si. É rapidíssimo nas sucessões de nuance, de maneira que todas as notas podem parecer modalmente importantes; para alguns intérpretes, parecerá faltar estabilidade, enquanto que em geral é muito sólido, como o oitavo modo, ao qual se unem muito bem. Mantenhamos, então, o termo “ardente” para falar do ethos do terceiro modo, por mais imperfeita e incompleta possa parecer essa qualificação. Esse ardor explode tanto na súplica insistente (offertorio Domine exaudi), quanto na contemplação maravilhada no introitus Vocem iucundidatis. É evidentemente difícil manter esse respiro interior, sem grandiloquência e agitação, que é a contemplação de um novo mundo espiritual, tanto a performance da voz, do estilo ou da alma, não está ao alcance de todos. É um privilégio dos contemplativos… os quais o canto é quotidiano e a qual meditação permanece nos altos. Entre os oito modos consagrados aos diferente estados da alma na piedade e na meditação da Sagrada Escritura, seria normal que um deles se fizesse o intérprete da profundidade mística: é a índole própria do terceiro modo e a sua grandeza. Certo, como cada grande arte, o terceiro modo morreu “em flor”. Ainda assim, na história, foi muito à frente dos outros, integrando-os e superando-os. Nos revela ao mesmo tempo a calma e o esplendor do imaculado topo das montanhas e o borbulhar das lavas em suas crateras. Estamos aqui muito além do caráter musical e do diletantismo; muito além do ascetismo e do pietismo. Tertius, mysticus!Jean Jeanneteau: é um padre católico francês, especialista em canto gregoriano, cânone da catedral de Angers, fundador da Escola de Angers de eletrônica em 1956 e do Instituto de música sacra da Faculdade de teologia de Angers em 1957 e vice-reitor da Universidade Católica de Angers de 1966 a 1975.   (Extraído de “I modi gregoriani” de Dom Daniel Saulnier)

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