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O “Ethos” dos Modos: V modo (tritus autenticus)

Crocifissione di san Pietro - Caravaggio (1601)
Crocifissione di San Pietro – Caravaggio (1601)

O Tritus de quinto modo é sanguíneo: Expansivo, reflete a alegria que deve ser externada.

Por J. Jeanneteau   Os numerosos autores que falaram dos ethos dos modos entraram todos em acordo sobre a qualificação do quinto modo: contente (laetus). Efetivamente, pela maior parte do tempo, o seu andamento geral é aquele de uma alegria franca,  assertiva ou triunfante. Impulsiona-se do início e mantém o seu vigor e sua inspiração, às vezes de modo impetuoso, apoiando-se sobre a estrutura sólida da quinta fa-dó. Sabe triunfar sem esforço, sem uma erudição pomposa e  hermética, e sabe conservar a sua luminosidade. Isto se verifica bem, por exemplo, nos versos dos graduais, no Sanctus IX, e  no intróito Ecce Deus. Em sua alegria exterior, o quinto modo nos parece menos interior, menos confidencial que os outros. Coloca em vista mais facilmente a sua alegria, e isto que lhe basta. Os cantos tardios são, nesta visão, de uma concentração interior ainda menor. O Sanctus IX é tão somente feliz, em boa saúde, sem complexidades. Não existe exaltação profunda, mais impregnante, que  a do ofertório Reges Tharsis, nem, a fortiori, o entusiasmo aéreo do sétimo modo. Mas é oportuno, como para cada ethos, esboçar esta afirmação de alegria. De fato, cinco cantos, não exultantes, a contradizem. O gradual Christus factus est, cópia do gradual Ecce sacerdos magnus,nele se pode notar, todavia, sob base das perplexidades geralmente citadas em confronto aos códigos modais, que a primeira parte é completamente de um quinto modo triunfante, adequado a este texto de exaltação. O  Caligaverunt, por outro lado, é um canto de luto, um lamento do Senhor, impregnado de dor e de angústia, com suas cadências sobre láe sol. O Ierusalem luge (ou surge,nas edições práticas). A melodia, particularmente atormentada, usa de modo tradicional as aproximações entre fáe si. Não obstante toda a angústia, as melodias de Caligaverunte de Ierusalem luge são solidamente construídas sobre as estruturas ardentes e afirmativas do quinto modo. O Plange. Nesse convite à tristeza diante da morte do Cristo, existe a dor ardente de ululate, a angústia de amara valde; ao longo de todo o canto, é o sofrimento e não a alegria. Não obstante o verso-tipo do responsório de quinto modo, a modalidade é um pouco complexa, com esboços de sétimo modo, e uma entoação absolutamente incomum em quinto modo. A alegria e o triunfo deram lugar aqui à comoção, mas sobra a vitalidade: o quinto modo é sempre vivo e apaixonado ao agudo, e mais afetuoso e também doce na região grave. O Ecce vidimus é classificado em quinto modo por conta de sua nota final e seu verso-tipo. Mas o todo desta obra-prima da Semana Santa é de modalidade imprecisa, ao menos para aqueles que tendem a etiquetar cada canto sem saborear a unidade, o equilíbrio e o lirismo de um responsório similar, e sem procurar a causa de sua unidade. Na verdade a modadalide deste canto é complexa. O início é no quarto modo, sobre a corda si até a cadência invertida de speciem. Depois que o dótoma um pouco de importância, a melodia desce em direção a uma cadência de fá,através do si bemol. O vocabulário do sexto modo se mantém até a cadência sobre o fa de non est. Segue então um salto de quinta e de oitava que introduz o vocabulário efervescente e afirmativo do quinto modo. Depois, é a corda dóque cria unidade, com três cadências sucessivas: sol, lá,e fá. Só uma grande experiência com análise modal possibilita compreender cantos similares, nos quais – se assim se pode dizer – a modalidade supera a modalidade, no sentido de que “a verdadeira eloquência zomba da eloquência”. Os cantos mais recentes, como o sacrum convivium, são menos sóbrios, menos francos; o seu estilo é mais complexo, um pouco enfraquecido. Estes perderam de vista as linhas elementares e a armadura sólida do modo, os seus feixes visíveis e seus centones pré-fabricados. Com a sua arquitetura simples e seus materiais pré-fabricados, o quinto modo pode permitir-se um desenvolvimento melódico fácil, sem dever recorrer a uma inspiração completamente original. No emaranhado de suas fórmulas e de seus procedimentos muito simples, consegue um verdadeiro triunfo como os maravilhosos graduais de quinto modo. O repertório nos revela assim um modo capaz de um lirismo um tanto sútil quanto aquele de muitos outros modos. A firmeza de sua linha melódica deriva sobretudo da sua afirmação de sua quinta fá-dó e da base sólida e cômoda do fá, verdadeira tônica moderna. Em relação aos outros modos, o quinto não tem a possibilidade de apoiar-se provisoriamente em uma sub-tônica (dó do protus, ré do deuterus ou fá do tetrardus). O sexto pode ainda repousar-se sobre o ré; o quinto não tem essa facilidade e nem esta riqueza. Ao agudo, subirá um dia até o fá, e se inserirá na oitava moderna fá-fá. É uma tendência, que ainda não foi alcançada. O jogo do si, oscilante entre si bequadro e si bemol, o impede; o mesmo se aplica para a sua fuga do que será um dia a “sensível”, mi-fá. O quinto modo se revela assim muito antigo: pela sua ignorância da sensível, pela sua firmeza de sua dominante dó, pelo seu recursos incessante de seu rico catálogo de fórmulas. Ele é ainda muito moderno: pelo valor atrativo de sua tônica, sua tendência de oitava integral, apoiada sobre uma quinta sólida, e uma terça firme, pelo jogo do bemol, que não é ainda cromatismo, mas que está para lhe dar vida. Talvez sua aparição tardia explique essa situação híbrida, que pré-anuncia o modo maior moderno. É um modo de transição entre a monodia modal e a música tonal.   Jean Jeanneteau (1908 – 1992): é um padre católico francês, especialista em canto gregoriano, cânone da catedral de Angers, fundador da Escola de Angers de eletrônica em 1956 e do Instituto de música sacra da Faculdade de teologia de Angers em 1957 e vice-reitor da Universidade Católica de Angers de 1966 a 1975.   (Extraído de “I modi gregoriani” de Dom Daniel Saulnier)

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